quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

ESCUTATÓRIA

Por Rubem Alves

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso deescutatória.
Todo mundo quer aprender a falar... Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai sematricular.Escutar é complicado e sutil.


Diz Alberto Caeiro que... Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro:Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma. Daí a dificuldade: A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor... Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração...E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.


Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil denossa arrogância e vaidade. No fundo, somos os mais bonitos... Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes,ninguém fala. Há um longo, longo silêncio.Vejam a semelhança...Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio...Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.


Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente,alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falouos seus pensamentos...Pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.


Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado.

Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidadeeu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que vocêfalou. Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que umabofetada. O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou. E, assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora.

É preciso silêncio dentro. Ausência depensamentos.E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisasque não ouvia.Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa conhecia a experiência...E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras... No lugar onde não há palavras.A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimosa melodia que não havia...Que de tão linda nos faz chorar. Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam numcontraponto.

Um comentário:

Kati disse...

Cara... pastor, tu ta de parabens pelo blog, esse texto postado entao... muito massa! O Silencio é realmente necessario. Falou tudo esse texto. E coloquei um texto em meu blog q tirei do teu, sobre George muller, se nao tiver problema claro. Vou por teu blog nos mues links. Paz amado...