segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

CUIDADO COM OS BURROS MOTIVADOS



A Revista ISTO É publicou uma espetacular entrevista com Roberto Shinyashiki. Embora a entrevista seja de 2007, continua atual. Às vésperas de um novo ano, quando o mundo sofre um surto de otimismo e uma overdose de autoestima, vale apena fazer algumas honestas considerações.

O entrevistado é médico psiquiatra, com Pós-Graduação em administração de empresas pela USP, consultor organizacional e conferencista de renome nacional e internacional.

Em "Heróis de Verdade", o escritor combate a supervalorização das aparências, diz que falta ao Brasil competência, e não auto-estima. Um excelente livro! A entrevista é muito instrutiva.

ISTOÉ – QUEM SÃO OS HERÓIS DE VERDADE?

Roberto Shinyashiki
-- Nossa sociedade ensina que, para ser uma pessoa de sucesso, você precisa ser diretor de uma multinacional, ter carro importado, viajar de primeira classe.
O mundo define que poucas pessoas deram certo. Isso é uma loucura.
Para cada diretor de empresa, há milhares de funcionários que não chegaram a ser gerentes.
E essas pessoas são tratadas como uma multidão de fracassados. Quando olha para a própria vida, a maioria se convence de que não valeu a pena porque não conseguiu ter o carro nem a casa maravilhosa.

Para mim, é importante que o filho da moça que trabalha na minha casa possa se orgulhar da mãe. O mundo precisa de pessoas mais simples e transparentes. Heróis de verdade são aqueles que trabalham para realizar seus projetos de vida, e não para impressionar os outros.
São pessoas que sabem pedir desculpas e admitir que erraram.

ISTOÉ - O SR. CITARIA EXEMPLOS?
Shinyashiki -- Quando eu nasci, minha mãe era empregada doméstica e meu pai, órfão aos sete anos,empregado em uma farmácia. Morávamos em um bairro miserável em São Vicente (SP) chamado Vila Margarida. Eles são meus heróis. Conseguiram criar seus quatro filhos, que hoje estão bem.

Acho lindo quando o Cafu põe uma camisa em que está escrito "100% Jardim Irene". É pena que a maior parte das pessoas esconda suas raízes. O resultado é um mundo vítima da depressão, doença que acomete hoje 10% da população americana.

Em países como Japão, Suécia e Noruega, há mais suicídio do que homicídio. Por que tanta gente se mata?

Parte da culpa está na depressão das aparências, que acomete a mulher que, embora não ame mais o marido, mantém o casamento, ou o homem que passa décadas em um emprego que não o faz se sentir realizado, mas o faz se sentir seguro.

ISTOÉ -- Qual o resultado disso?
Shinyashiki -- Paranóia e depressão cada vez mais precoces. O pai quer preparar o filho para o futuro e mete o menino em aulas de inglês, informática e mandarim. Aos nove ou dez anos a depressão aparece.

A única coisa que prepara uma criança para o futuro é ela poder ser criança. Com a desculpa de prepará-los para o futuro, os malucos dos pais estão roubando a infância dos filhos.
Essas crianças serão adultos inseguros e terão discursos hipócritas. Aliás, a hipocrisia já predomina no mundo corporativo.


ISTOÉ - Por quê?
Shinyashiki -- O mundo corporativo virou um mundo de faz-de-conta, a começar pelo processo de recrutamento. É contratado o sujeito com mais marketing pessoal. As corporações valorizam mais a auto-estima do que a competência.

Sou presidente da Editora Gente e entrevistei uma moça que respondia todas as minhas perguntas com uma ou duas palavras. Disse que ela não parecia demonstrar interesse. Ela me respondeu estar muito interessada, mas, como falava pouco, pediu que eu pesasse o desempenho dela, e não a conversa. Até porque ela era candidata a um emprego na contabilidade, e não de relações públicas. Contratei-a na hora. Num processo clássico de seleção, ela não passaria da primeira etapa.

ISTOÉ -- Há um script estabelecido?
Shinyashiki -- Sim. Quer ver uma pergunta estúpida feita por um Presidente de multinacional no programa O aprendiz ?

"Qual é seu defeito?" Todos respondem que o defeito é não pensar na vida pessoal:
"Eu mergulho de cabeça na empresa. Preciso aprender a relaxar".

É exatamente o que o Chefe quer escutar.

Por que você acha que nunca alguém respondeu ser desorganizado ou esquecido? É contratado quem é bom em conversar, em fingir. Da mesma forma, na maioria das vezes, são promovidos aqueles que fazem o jogo do poder. O vice-presidente de uma as maiores empresas do planeta me disse: " Sabe, Roberto, ninguém chega à vice-presidência sem mentir". Isso significa que quem fala a verdade não chega a diretor?

ISTOÉ -- Temos um modelo de gestão que premia pessoas mal preparadas?Shinyashiki -- Ele cria pessoas arrogantes, que não têm a humildade de se preparar, que não têm capacidade de ler um livro até o fim e não se preocupam com o conhecimento.
Muitas equipes precisam de motivação, mas o maior problema no Brasil é competência.

CUIDADO COM OS BURROS MOTIVADOS.

Há muita gente motivada fazendo besteira.
Não adianta você assumir uma função para a qual não está preparado.

Fui cirurgião e me orgulho de nunca um paciente ter morrido na minha mão. Mas tenho a humildade de reconhecer que isso nunca aconteceu graças a meus chefes, que foram sábios em não me dar um caso para o qual eu não estava preparado.
Hoje, o garoto sai da faculdade achando que sabe fazer uma neurocirurgia. O Brasil se tornou incompetente e não acordou para isso.

ISTOÉ -- Está sobrando auto-estima?
Shinyashiki -- Falta às pessoas a verdadeira auto-estima. Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha auto-estima está baixa.

Antes, o ter conseguia substituir o ser. O cara mal-educado dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do garçom.


Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer.
As pessoas parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam. E poucos são humildes para confessar que não sabem. Há muitas mulheres solitárias no Brasil que preferem dizer que é melhor assim. Embora a auto-estima esteja baixa, fazem pose de que está tudo bem.

ISTOÉ -- Por que nos deixamos levar por essa necessidade de sermos perfeitos em tudo e de valorizar a aparência?

Shinyashiki -- Isso vem do vazio que sentimos. A gente continua valorizando os heróis. Quem vai salvar o Brasil? O Lula.

Quem vai salvar o time? O técnico.
Quem vai salvar meu casamento? O terapeuta.
O problema é que eles não vão salvar nada! Tive um professor de filosofia que dizia: "Quando você quiser entender a essência do ser humano, imagine a rainha Elizabeth com uma crise de diarréia durante um jantar no Palácio de Buckingham". Pode parecer incrível, mas a rainha Elizabeth também tem diarréia. Ela certamente já teve dor de dente, já chorou de tristeza, já fez coisas que não deram certo.

A gente tem de parar de procurar super-heróis. Porque se o super-herói não segura a onda, todo mundo o considera um fracassado.

ISTOÉ -- O conceito muda quando a expectativa não se comprova?
Shinyashiki -- Exatamente.

A gente não é super-herói nem superfracassado. A gente acerta, erra, tem dias de alegria e dias de tristeza. Não há nada de errado nisso.
Hoje, as pessoas estão questionando o Lula em parte porque acreditavam que ele fosse mudar suas vidas e se decepcionaram.
A crise será positiva se elas entenderem que a responsabilidade pela própria vida é delas.

ISTOÉ -- Muitas pessoas acham que é fácil para o Roberto Shinyashiki dizer essas coisas, já que ele é bem-sucedido. O senhor tem defeitos?
Shinyashiki -- Tenho minhas angústias e inseguranças. Mas aceitá-las faz minha vida fluir facilmente. Há várias coisas que eu queria e não consegui. Jogar na Seleção Brasileira, tocar nos Beatles (risos).

Meu filho mais velho nasceu com uma doença cerebral e hoje tem 25 anos. Com uma criança especial, eu aprendi que ou eu a amo do jeito que ela é ou vou massacrá-la o resto da vida para ser o filho que eu gostaria que fosse. Quando olho para trás, vejo que 60% das coisas que fiz deram certo. O resto foram apostas e erros.

Dia desses apostei na edição de um livro que não deu certo. Um amigão me perguntou: "Quem decidiu publicar esse livro?" Eu respondi que tinha sido eu. O erro foi meu.
Não preciso mentir.

ISTOÉ - Como as pessoas podem se livrar dessa tirania da aparência?
Shinyashiki -- O primeiro passo é pensar nas coisas que fazem as pessoas cederem a essa tirania e tentar evitá-las.


São três fraquezas.
A primeira é precisar de aplauso, a segunda é precisar se sentir amada e a terceira é buscar segurança.
Os Beatles foram recusados por gravadoras e nem por isso desistiram. Hoje, o erro das escolas de música é definir o estilo do aluno. Elas ensinam a tocar como o Steve Vai, o B. B. King ou o Keith Richards.

Os MBAs têm o mesmo problema: ensinam os alunos a serem covers do Bill Gates. O que as escolas deveriam fazer é ajudar o aluno a desenvolver suas próprias potencialidades.

ISTOÉ -- Muitas pessoas têm buscado sonhos que não são seus?
Shinyashiki -- A sociedade quer definir o que é certo. São quatro loucuras da sociedade.
A primeira é instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse significados individuais.

A segunda loucura é: Você tem de estar feliz todos os dias. A terceira é: Você tem que comprar tudo o que puder. O resultado é esse consumismo absurdo.

Por fim, a quarta loucura:
Você tem de fazer as coisas do jeito certo. Jeito certo não existe!

Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade.

Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito. Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento.
Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou com amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo a praia ou ao cinema.

Quando era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes. Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte.

A maior parte pega o médico pela camisa e diz: "Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz". Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada.

Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida.


Fonte: Isto É
Por Camilo Vannuchi.

sábado, 24 de dezembro de 2011

O MELHOR LIVRO SOBRE O COMUNISMO


SINOPSE DO LIVRO

O comunismo - Richard Pipes

Da utopia ao colapso, a história do comunismo pela óptica de um dos mais notáveis historiadores da atualidade
"Monumental e detalhista(...)uma crônica abrangente e cativante, uma leitura envolvente." - Washington Post
"Nenhuma outra obra atende, de forma tão adequada, aos que pretendem descobrir o que realmente aconteceu na Rússia." - New York Times Book Review

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A DOUTRINA DA ENCARNAÇÃO







A doutrina da encarnação é uma das mais peculiares e importantes doutrinas cristãs. A palavra encarnação vem do latim e significa “ser em carne”. No prólogo do evangelho de João (Jo 1.1-18) está escrito: “Aquele que é a Palavra de Deus tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como a do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e verdade. (Jo 1.14) Observe que a Palavra, termo empregado para alguém vivo e imortal, tornou-se (entrou na história humana) carne, algo finito, humano e mortal.


A idéia da “encarnação” significa Deus tomando a forma de corpo humano, submetendo-se a um processo voluntário de humilhação para entrar na história humana e assumir toda a experiência da existência como ser humano. O brilhante teólogo, Anselmo de Cantuária (1033-1109), tratou com maestria essa doutrina em seu livro Por que Deus se fez homem?

Segue abaixo um resumo da perspectiva teológica de sua monumental obra.

1) Deus criou a humanidade originalmente em estado de retidão com o objetivo de conduzi-la a umestado de bem-aventurança.

2) O estado de eterna bem-aventurança depende da obediência humana a Deus. Entretanto, por causa do pecado, a humanidade é incapaz de alcançar a necessária obediência, que parece
frustrar o propósito inicial de Deus quando criou a humanidade.

3) Uma vez que é impossível frustrar os propósitos de Deus, deve haver algum meio pelo qual essa situação pode ser reparada. Contudo, isso só pode acontecer se houver compensação pelo pecado. Em outras palavras, algo precisava ser feito para que a ofensa provocada pelo pecado
humano pudesse ser removida.

4) Entretanto, não há como a humanidade providenciar a compensação necessária. Ela não possui os recursos necessários para atender a compensação exigida.

5) Portanto, um “Deus-Homem” teria tanto a habilidade (como Deus) quanto a obrigação (como ser humano) para atender à compensação exigida. Portanto, a encarnação acontece para que a compensação exigida seja atendida; a humanidade, redimida.

O natal é a celebração do nascimento de Jesus, nosso bendito Emanuel. O Deus Filho, co-igual e co-eterno com o Pai, escolheu encarna-se, assumindo um corpo humano, para assim sofrer as nossas dores e morrer a nossa morte. Jesus é único porque somente ele é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, nosso Salvador.


Judiclay Silva Santos


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A TERÇA PARTE DO ICEBERG


UM EXAME SOBRE O CONFLITO HUMANO


Caros amigos sou assíduo leitor e profundo admirador do Dr. Martyn Lloyd Jones, um dos mais notáveis expositores bíblicos que já existiu. Quem conhece as suas obras sabe do que estou falando. Já tive a oportunidade de ler dezenas de seus livros, a maioria deles publicados pela editora PES, cujo serviço ao povo de língua portuguesa é imensurável. Estou relendo o sétimo volume (O Combate Cristão) da série de exposições na Carta aos Efésios, uma jóia de grande valor.

Segue abaixo, um estrato do segundo capítulo, pp. 27-28.

A IRREFUTÁVEL ANÁLISE DOS 

CONFLITOS HUMANOS.

Interessei-me recentemente em ler uma resenha de parte da autobiografia de um bem conhecido escritor moderno, um escritor cético e irreligioso, Leonard Woolf. A resenha foi escrita por outro cético literário, Kingsley Martin. Mas o resenhista, não obstante, tinha chegado à conclusão de que o problema com toda esta escola a que pertence Leonardo Wolff é apenas este, que não enxergam que, no principal, o homem é irracional. Ele usou o que me pareceu uma ilustração muito boa. “O que Leonard Woolf e todos os seus companheiros, tais como Bertrand Russell e outros, nunca puderam captar isto”, disse ele, “que o homem é uma espécie de iceberg”. Acima da água fica certo volume, talvez cerca de um terço, que pode parecer muito branco, no entanto abaixo da superfície ficam dois terços fora de vista, nas profundezas, na escuridão.


Escritores como Leornard Woolf, diz Kingsley Martin, não compreenderam que o homem é dominantemente irracional. O que ele quer dizer, naturalmente, é que o homem não é governado por sua mente, por seu intelecto, por seu entendimento, e sim por seus desejos, ímpetos é instintos, por aquilo que os psicólogos chamam “impulsos”. Estas são as coisas que controlam e dominam o homem; e o problema que confronta o mundo na era presente é o desses “impulsos” instintivos.


Pode-se ver isso tudo no plano nacional e internacional, como também no caso do indivíduo; e isto torna tão infantilmente ridículas todas as afirmações otimistas sobre alguma organização mundial, de que iria eliminar a guerra. A guerra é pura loucura, de qualquer ponto de vista.É desperdício de dinheiro, é desperdício de vidas, é uma maneira infantil de resolver contendas e problemas. Como se pode resolver um problema do governo ou qualquer outro problema simplesmente matando-se uns aos outros? Eu repito, a guerra é pua doidice; não há nada que se possa dizer em seu favor. Então, por que as nações brigam se preparam para a guerra? A resposta é que não são governadas por suas mentes e intelectos, mas pelos dois terços que estão debaixo da superfície, a parte do iceberg que não se vê – ambição, avareza, orgulho nacional, desejo de posse e desejo de tornar-se cada uma maior do que as outras. São sempre estas coisas que causam as guerras.


De onde vem as guerras e peleja entre vós? , indaga Tiago. Porventura não vêm disto, a saber, dos vossos deleites, que nos vossos membros guerreiam?”Tg 4.1 Esse é um fato, quanto a indivíduos e quanto a nações; e desde que é um fato, segue-se que nada, senão aquilo que possa lidar com estes dois terços poderosos e ocultos, pode realmente providenciar um remédio para a situação. O evangelho reivindica que ele, e só ele, pode fazê-lo. Não há nenhuma outra coisa que possa.

sábado, 10 de dezembro de 2011

O DIA DA BÍBLIA!




O Dia da Bíblia surgiu em 1549, na Grã-Bretanha, quando o Bispo Thomas Cranmer, incluiu no livro de orações do Rei Eduardo VI um dia especial para que a população intercedesse em favor da leitura da Bíblia. A data escolhida foi o segundo domingo do Advento - celebrado nos quatro domingos que antecedem o Natal. Foi assim que o segundo domingo de dezembro tornou-se o Dia da Bíblia. No Brasil, o Dia da Bíblia passou a ser celebrado em 1850, com a chegada dos primeiros missionários evangélicos, vindos da Europa e dos Estados Unidos.

Ao longo dos séculos, a humanidade mantém uma relação paradoxal com a Bíblia. “A Bíblia é o livro dos paradoxos: é o livro mais lido e o mais desconhecido. É o livro mais amado e o mais odiado. É o livro mais obedecido e o mais escarnecido. É o mais pregado e o mais combatido” (Hernandes Dias Lopes). O imperador Diocleciano, em março de 303 baixou um decreto de perseguição aos cristãos e a Bíblia. Tácito nos informa que: “Em todas as partes publicaram-se editos imperiais para que fossem arrasadas as igrejas, queimadas as Escrituras...”

O método mudou, mas o plano de destruição continua. A estratégia agora, sobretudo no Ocidente, não é queimar a Bíblia em praça publica. A artimanha maligna consiste em desacreditar a Bíblia, apresentando-a como sendo um livro eivado de erros, cheio de crenças supersticiosas atraentes apenas a massa ignara, constituída de pobres e incautos. Esse é o engodo dos inimigos do evangelho. É triste constatar que vivemos em uma cultura pós-cristã, cada vez mais alienada de Deus.

Um olhar retrospectivo constatará que as mais inteligentes mentes nos mais diversos campos do saber eram cristãs. Pessoas sábias e cultas que acreditavam na Bíblia como sendo a Palavra de Deus. Mesmo aquelas que não seguiam a Jesus, reconheciam a Bíblia como sendo um livro sui generis. Inmanuel Kant, um dos maiores filósofos da história, disse: "A existência da Bíblia, como um livro para o povo é o grande benefício que a raça humana já tem experimentado. Toda tentativa para menosprezar a Bíblia é um crime contra a humanidade." Por desprezar a Palavra de Deus o mundo comete suicídio coletivo.

Nós, cristãos evangélicos, somos herdeiros de uma rica tradição que reconhece a Bíblia como a Palavra de Deus. Devemos nos dispor diligentemente a conhecer, amar, viver e ensinar a Bíblia. Gratos ao Senhor, professamos: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia! (Sl 119.97)

JOÃO FERREIRA DE ALMEIDA: UMA LUZ NA ESCURIDÃO!




Quando se visita o Museu Britânico, de Londres, ao passamos pelos seus históricos salões, com suas preciosas obras milenares, destaca-se aos olhos do visitante atento uma obra peculiar.



Um dos exemplares do Novo Testamento, publicado em 1681, por João Ferreira de Almeida, está ali exposto. Nota-se nesse exemplar uma peculiaridade notável. Impresso segundo as técnicas da época e publicado na Holanda, em Amsterdã, por ordem da Companhia Holandesa das Índias Orientais, neste manuscrito podem ser vistas algumas correções feitas a mão, demonstrando o cuidado e a urgência do autor em que a preciosa Palavra de Deus alcançasse os povos de língua portuguesa, com os quais trabalhava na Batávia, atualmente Jacarta, na ilha de Java, na Indonésia.



Embora o trabalho de revisão e correção daquela primeira edição do Novo Testamento não tenha sido visto pelo autor, pois demorou dez longos anos, a segunda versão foi impressa na própria Batávia e dali distribuída para os povos de língua portuguesa daquela região antes colônias de Portugal.



Enquanto aguardava essa revisão, Almeida não perdeu tempo e iniciou o trabalho de tradução do Antigo Testamento. Em 1683 ele já completara a tradução do Pentateuco.
Mas, com a saúde abalada, desde 1670, seu ritmo de trabalho era limitado. Ao diminuir suas atividades pastorais, ele dedicou a maior parte do tempo ao seu trabalho de tradução.


Embora abnegado e com um objetivo claro a alcançar em sua vida, Almeida faleceu em 6 de agosto de 1691, na Batávia, no Oriente, sem ver a sua obra completa. Enquanto tinha forças continuou trabalhando e sua tradução chegou, conforme alguns historiadores, ao capítulo 6 de Jeremias, e segundo outros historiadores, ao capítulo 48 de Ezequiel. Seu amigo e companheiro de ministério, o pastor holandês, Jacobus op den Akker, completou o seu trabalho, concluindo a tradução do Antigo Testamento.



O trabalho de tradução de João Ferreira de Almeida alcançava assim toda a Bíblia Sagrada e desde o início de suas publicações foi uma obra muito apreciada pelos conhecedores da língua portuguesa.


João Ferreira de Almeida foi um instrumento precioso nas poderosas mãos de Deus, para dar aos povos de fala portuguesa a tradução mais difundida e aceita entre esses povos, antes colônias de Portugal.



Quando a Igreja Católica Romana ainda lutava com a divulgação das Escrituras Sagradas, a tradução de Almeida surgiu como uma luz a brilhar na escuridão, em meio àqueles territórios, que, já libertos de Portugal, ainda se mantiveram por mais duzentos anos sob a influência da cultura e da língua portuguesa.


1. A infância e a conversão
Nascido em 1628, Almeida era natural de Torre de Tavares, Conselho de Mangualde; filho de pais católicos; bem cedo mudou-se para a Holanda, passando a residir com um tio. Ali aprendeu o latim e iniciou-se nos estudos das normas da igreja.Aos 14 anos, em 1642, aceitou a fé evangélica, na Igreja Reformada Holandesa, impressionado pela leitura de um folheto em espanhol, "Diferencias de la Cristandad", que tratava das diferenças entre as diversas correntes da crença cristã.

2. Um adolescente talentoso.
Já em 1644, aos 16 anos, Almeida inicia uma tradução do espanhol para o português, dos Evangelhos e dos Atos dos Apóstolos, os quais, copiados a mão, foram rapidamente espalhados pelas diversas comunidades dominadas pelos portugueses. Para este grandioso trabalho, Almeida também usava como fontes as versões latina, de Beza, francesa e italiana, todas elas traduzidas diretamente do grego e do hebraico. No ano de 1645, a tradução de todo Novo Testamento foi concluída; mas, como já foi dito, somente seria editada em 1681, em Amsterdã.



3. Um jovem operoso
Em 1648, relata J. L. Swellengrebel, um holandês que teve acesso às Atas do Presbitério da Igreja Reformada da Batávia e às Atas da Companhia Holandesa das Índias Orientais, Almeida já estava atuando como capelão visitante de doentes, em Malaca, Malásia, "percorrendo diariamente os hospitais e casas de doentes, animando e consolando a todos com as suas orações e exortações".


Em janeiro de 1649, Almeida é escolhido como diácono e membro do presbitério. Nessa função tinha a responsabilidade de administrar o fundo social, que prestava assistência aos pobres.Durante os dois anos em que desenvolveu essa função, continuou a sua obra de tradução e, após a tradução do Novo Testamento, dedicou-se e traduziu o Catecismo de Heidelberg e o Livro da Liturgia da Igreja Reformada. As primeiras edições dessas obras foram publicadas em 1656 e posteriormente em 1673.


Em março de 1651, foi para a Batávia, para a cidade de Djacarta, ainda como capelão visitante de doentes, mas simultaneamente, desenvolvia seus estudos de Teologia e revisava o Novo Testamento.Em 17 de março de 1651, foi examinado publicamente, sendo considerado candidato a ministro. Depois de ser examinado, pregou com eloqüência sobre Romanos 10.4. Desenvolve também um ministério importantíssimo entre os pastores holandeses ensinando-lhes o português, uma vez que ministravam nas igrejas portuguesas das Índias Orientais Neerlandesas.



4. Um ministro, perseguido pela Inquisição e salvo de um elefante
Em setembro de 1655, faz o exame final, quando prega sobre Tito 2.11-12, mas só recebe a sua confirmação em 22 de agosto de 1656. Neste mesmo ano, quase um mês depois, em 18 de setembro, é enviado como ministro para o Ceilão, hoje Sri Lanka.Luta Contra Os Cristãos Em 1657, João Ferreira de Almeida encontra-se em Galle, no sul do Ceilão, atuando como ministro. Durante o seu ministério em Galle, Almeida assumiu uma posição tão firme contra o que ele chamava de "superstições papistas", que o governo local resolveu apresentar uma queixa a seu respeito ao governo da Batávia.Durante a sua estadia em Galle é que, provavelmente, conheceu e se casou com Lucretia Valcoa e Lemmes, ou Lucrecia de Lamos, jovem também vinda do catolicismo romano.


O casal completou-se como família tendo dois filhos, um menino e uma menina, dos quais os historiadores não comentam mais nada. No decorrer da viagem de Galle para Colombo, Almeida e sua esposa foram milagrosamente salvos da investida de um elefante.

A partir de 1658, e durante três anos, Almeida desenvolveu o seu ministério na cidade de Colombo e ali de novo enfrenta problemas com o governo, o qual tentou, sem sucesso, impedi-lo de pregar em português. O motivo dessa medida, estava provavelmente relacionado com as firmes e fortes idéias anti-católicas do jovem pastor.Em 1661, Almeida vai para Tutecornin, no sul da Índia, onde foi pastor durante um ano e onde também não teve dias tranqüilos. Tribos da região negaram-se a ser batizadas ou ter os seus casamentos abençoados por ele, pelo fato da Inquisição ter ordenado que um retrato de Almeida fosse queimado numa praça pública em Goa.



5. Um ministro com maturidade e personalidade
Em 1662, Almeida está ministrando em Quilon, regressando para a Batávia em março de 1663, onde fica à frente da igreja portuguesa até dois anos antes de sua morte.Como dirigente desta igreja, em 1664, demonstra muita personalidade, expondo suas própria idéias, mas com maturidade aceita as decisões superiores. Neste ano tenta persuadir o Presbitério para que sua congregação tenha a sua própria celebração da Ceia; propõe também que os pobres que recebem auxílio do fundo social da igreja freqüentem as aulas de catequese; e elabora um folheto com orações para serem usadas na igrejas portuguesas.


Em 1666, propõe a nomeaçãode anciãos e diáconos, como auxiliares do ministério, mas sua proposta é rejeitada, vindo ser aprovada somente quatro anos depois. No ano de 1670, recebe a Carta Apologética, após cerca de seis anos de diálogo por correspondência, a qual assinala a ruptura definitiva entre ele e o padre e teólogo Jerônimo de Siqueira, a quem tentou evangelizar. Depois desta carta, não só Almeida voltou a defender-se, como sofreu também os ataques do jesuíta João Baptista Maldonado, num Diálogo Rústico, terminando desse modo a polêmica.


Em 1676, após ter dedicado vários anos ao aprendizado do grego e do hebraico e se aperfeiçoado no holandês, Almeida comunicou ao presbitério que a tradução do Novo Testamento estava pronta. A partir daí começou a batalhar para ver o seu texto publicado. Para ter o aval do presbitério e o consentimento do Governo da Batávia e da Companhia Holandesa das Índias Orientais, o seu texto deveria passar pelo crivo dos revisores indicados pelo presbitério.


Escolhidos os revisores, o trabalho começou, mas foi evoluindo lentamente.Em 1677, um novo ministro é chamado do Ceilão, para a Batávia, para caminhar ao lado de Almeida e futuramente substituí-lo. Seu nome é Jacobus op den Akker.


Numa reunião do Presbitério, em 1678, Almeida "declara-se solenemente contra os rumores que então corriam sobre o seu desejo de voltar ao catolicismo. Como prova da sua posição, demonstrou que o folheto "Diferencias de la Cristandad", que fora instrumento de sua conversão, tinha sido traduzido, em 1650, para o português e alguns anos mais tarde para o holandês.

6. Um ministro comprometido com a Palavra de Deus.
Em 1680, quatro anos depois do início da revisão, irritado com a morosidade do trabalho, envia o seu manuscrito, para ser publicado na Holanda por conta própria. O seu desejo é que a Palavra de Deus seja conhecida pelo povo de língua portuguesa. Mas, o presbitério percebe a situação e consegue sustar o processo, interrompendo a impressão.Depois de alguns meses, gastos entre discussões e brigas, quando Almeida já parecia ter desistido da publicação, cartas vindas da Holanda o informaram que o texto fora revisado e que estava sendo impresso.


Em 1681, a primeira edição do Novo Testamento de Almeida finalmente saiu da gráfica e no ano seguinte, em 1682, chegou à Batávia. Quando começou a ser manuseada foram percebidos vários erros de tradução e revisão. Tal fato foi comunicado à Holanda e todos os exemplares que ainda não haviam saído de lá foram destruídos, por ordem da Companhia Holandesa das Índias Orientais. 


As autoridades holandesas determinaram também que se fizesse o mesmo com os exemplares que já estavam na Batávia. Mas, ao mesmo tempo, providenciaram para que se começasse, o mais rapidamente possível, uma nova e cuidadosa revisão do texto.Apesar das ordens recebidas da Holanda, nem todos os exemplares foram destruídos, e correções foram feitas a mão com o objetivo de que cada comunidade pudesse fazer uso desse material. Um desses exemplares foi preservado e se encontra no Museu Britânico em Londres.



7. O final de uma vida dedicada.
Devido à sua saúde abalada, foi permitido a João Ferreira de Almeida, que dedicasse menos horas ao seu trabalho na igreja. Com isso entregou-se ainda mais à tradução do Antigo Testamento, trabalho que já tinha iniciado anos antes. Um ano depois, em 1683, já havia traduzido o Pentateuco.Em 1689, Almeida é considerado "pastor emérito" e também neste ano, em 16 de setembro ele pede a sua jubilação, "em virtude da velhice e fraqueza".As últimas atas das reuniões do presbitério que se referem à sua presença datam de agosto de 1691.


Na ata da reunião do dia 20 de agosto daquele ano ainda há menção do seu nome, mas ao que parece, ele já não estava mais presente. João Ferreira de Almeida faleceu em 6 de agosto desse ano, aos 63 anos, deixando a esposa e um casal de filhos.O término de sua obra, como mencionado antes, deu-se através do seu colega de ministério, o pastor Jacobus op den Akker.


Convém lembrar, como vemos em sua história, relatada no livro Deus, o homem e a Bíblia, que Almeida "lutou durante toda a sua vida para manter as comunidades evangélicas portuguesas nos seus próprios lugares", enquanto os holandeses iam ocupando os lugares do império português nas Índias. Almeida se esforçou continuamente para que essas comunidades tivessem outros livros na língua portuguesa. Numerosas traduções foram feitas por ele para o português, porém tais trabalhos não chegaram a ser publicados. Outros livretos, entretanto, foram impressos na Holanda e na Batávia.


Quando completou a tradução do Novo Testamento, Almeida foi recompensado pelo presbitério com a importância de 30 réis, quantia esta aumentada, pelo Governo da Companhia Holandesa das Índias Orientais em mais 50 réis.