segunda-feira, 18 de agosto de 2008

SOBRE PASTORES E LOBOS



Osmar Ludovico da Silva


Pastores e lobos têm algo em comum: ambos se interessam e gostam de ovelhas, e vivem perto delas. Assim, muitas vezes, pastores e lobos nos deixam confusos para saber quem é quem. Isso porque lobos desenvolveram uma astuta técnica de se disfarçar em ovelhas interessadas no cuidado de outras ovelhas. Parecem ovelhas, mas são lobos.


No entanto, não é difícil distinguir entre pastores e lobos. Urge a cada um de nós exercitar o discernimento para descobrir quem é quem. Pastores buscam o bem das ovelhas, lobos buscam os bens das ovelhas.


Pastores gostam de convívio, lobos gostam de reuniões.
Pastores vivem à sombra da cruz, lobos vivem à sombra de holofotes.
Pastores choram pelas suas ovelhas, lobos fazem suas ovelhas chorar.
Pastores têm autoridade espiritual, lobos são autoritários e dominadores.
Pastores têm esposas, lobos têm coadjuvantes.
Pastores têm fraquezas, lobos são poderosos.
Pastores olham nos olhos, lobos contam cabeças.
Pastores apaziguam as ovelhas, lobos intrigam as ovelhas.
Pastores têm senso de humor, lobos se levam a sério.
Pastores são ensináveis, lobos são donos da verdade.
Pastores têm amigos, lobos têm admiradores.
Pastores se extasiam com o mistério, lobos aplicam técnicas religiosas.
Pastores vivem o que pregam, lobos pregam o que não vivem.
Pastores vivem de salários, lobos enriquecem.
Pastores ensinam com a vida, lobos pretendem ensinar com discursos.
Pastores sabem orar no secreto, lobos só oram em público.
Pastores vivem para suas ovelhas, lobos se abastecem das ovelhas.
Pastores são pessoas humanas reais, lobos são personagens religiosos caricatos.
Pastores vão para o púlpito, lobos vão para o palco.
Pastores são apascentadores, lobos são marqueteiros.
Pastores são servos humildes, lobos são chefes orgulhosos.
Pastores se interessam pelo crescimento das ovelhas, lobos se interessam
pelo crescimento das ofertas.
Pastores apontam para Cristo, lobos apontam para si mesmos e para a instituição.
Pastores são usados por Deus, lobos usam as ovelhas em nome de Deus.
Pastores falam da vida cotidiana, lobos discutem o sexo dos anjos.
Pastores se deixam conhecer, lobos se distanciam e ninguém chega perto.

Pastores sujam os pés nas estradas, lobos vivem em palácios e templos.
Pastores alimentam as ovelhas, lobos se alimentam das ovelhas.
Pastores buscam a discrição, lobos se autopromovem.
Pastores conhecem, vivem e pregam a graça, lobos vivem sem a lei e pregam a lei.
Pastores usam as Escrituras como texto, lobos usam as Escrituras como pretexto.
Pastores se comprometem com o projeto do Reino, lobos têm projetos pessoais.
Pastores vivem uma fé encarnada, lobos vivem uma fé espiritualizada.
Pastores ajudam as ovelhas a se tornarem adultas, lobos perpetuam a infantilização das ovelhas.
Pastores lidam com a complexidade da vida sem respostas prontas, lobos lidam com técnicas pragmáticas com jargão religioso.
Pastores confessam seus pecados, lobos expõem o pecado dos outros.
Pastores pregam o Evangelho, lobos fazem propaganda do Evangelho.
Pastores são simples e comuns, lobos são vaidosos e especiais.
Pastores têm dons e talentos, lobos têm cargos e títulos.
Pastores são transparentes, lobos têm agendas secretas.
Pastores dirigem igrejas-comunidades, lobos dirigem igrejas-empresas.
Pastores pastoreiam as ovelhas, lobos seduzem as ovelhas.
Pastores trabalham em equipe, lobos são prima-donas.
Pastores ajudam as ovelhas a seguir livremente a Cristo, lobos geram ovelhas dependentes e seguidoras deles.
Pastores constroem vínculos de interdependência, lobos aprisionam em vínculos de co-dependência.


Os lobos estão entre nós e é oportuno lembrar-nos do aviso de Jesus Cristo: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados em ovelhas, mas interiormente são devoradores (Mateus 7:15).

sábado, 16 de agosto de 2008

O TRONO - UMA ORAÇÃO PURITANA

Ó DEUS DO MEU DELEITE,
Teu trono de graça é a base do prazer da minha alma.
Aqui obtenho misericórdia em tempo de necessidade,
aqui vejo o sorriso da tua face reconciliada,
aqui profiro alegremente o nome de Jesus,
aqui afio a espada do Espírito, cinjo a couraça da fé,
ponho o capacete da salvação, colho o maná da tua palavra,
sou fortalecido em cada conflito, jamais esquivando-me da batalha,
capacitado a vencer cada inimigo;
Ajuda-me a vir a Cristo
como a principal fonte de onde as bênçãos procedem,
como a larga porta aberta para um dilúvio de misericórdia.
Espanta-me minha insensata tolice,
que com tão ricos favores a meu alcance
eu seja lento para estender a mão e tomá-los.
Tem misericórdia do meu estado mortal em razão do teu nome.
Estimula-me, revolve-me, enche-me com santo zelo.
Fortalece-me para que eu possa me apegar a ti e não te deixa ir embora.
Que teu Espírito modele dentro em mim todas as bênçãos da tua mão.
Quando eu não avanço, retrocedo.
Faz-me andar humildemente por causa do bem omitido e do mal cometido.
Imprime sobre minha mente a brevidade do tempo, a obra na qual se engajar,
a conta a ser prestada, a proximidade da eternidade,
o temível pecado de desprezar teu Espírito.
Que eu nunca esqueça que teus olhos sempre vêem,
teus ouvidos sempre ouvem, tua mão registradora sempre escreve.
Que eu nunca te dê descanso até que Cristo seja o pulsar do meu coração;
aquele que fala pelos meus lábios, a lâmpada dos meus pés.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

“O Senhor levanta os abatidos” (Sl 146.7).



A graça de Deus na vida de George Friedrich Haendel (1685-1759)

Händel nasceu em Halle, na Alemanha, a 23 de fevereiro de 1685. Filho de um cirurgião-barbeiro começou a tocar cravo às escondidas do pai, que não queria vê-lo músico. Aos sete anos, aprendeu vários instrumentos, entre eles, violino e oboé; concomitantemente continuava seus estudos no ginásio luterano de sua cidade. Aos 12 anos fez sua estréia como músico na Corte de Berlim. Tocou nas orquestras de Hanover e Hamburgo. Atendendo às exigências paternas, Händel fez estudos jurídicos na universidade de Halle, doutorando-se em direito. Ma sua vocação era musical. Em 1706, aos 21 anos, saiu da Alemanha e foi para a Itália, onde aprofundou os seus estudos e se tornou amplamente conhecido em todo universo musical. Na Inglaterra, aonde viveu a maior parte de sua vida adulta, consolidou sua fama como brilhante músico, chegando a ser líder da Real Academia de Música. Ao todo escreveu cerca de 42 óperas, mundialmente conhecidas.


No ano de 1741, aos 56 anos de idade, Haendel enfrentou uma aguda crise. Depressivo e emocionalmente esgotado, viveu uma fase que muitos julgavam irreversível. Tudo começou a mudar quando Haendel entendeu que “o Senhor levanta os abatidos” (Sl 146.7). Durante 23 dias Haendel permaneceu isolado em sua casa. As refeições trazidas eram devolvidas sem sequer serem tocadas. Haendel estava na sala de cirurgia do Médico da alma. Seus amigos disseram que às vezes “era possível ouvi-lo soluçando, aos prantos – profundamente tocado pelos textos bíblicos e por seu amor a Jesus”. Foi nesse período que, pela graça de Deus, Haendel foi restaurado. Inspirado e cheio da alegria dos céus, ele compôs a sua mais bela e famosa obra: O Messias. Quanto à sua experiência naqueles dias, ele disse: “Eu sentia como se visse todo o céu diante de mim, bem como o próprio Deus”.


Todos nós estamos sujeitos as mesmas lutas. A questão é como reagimos a esses períodos de crise. Haendel buscou a cura em Deus e por isso pôde fazer coro com o salmista: “Tu me verás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente”. Sl 16.11

DE VOLTA AO PRIMEIRO AMOR

A igreja em Éfeso era conhecida pelas muitas obras realizadas. Naquela ocasião era a Igreja mais forte e de maior influência na região, sendo a maior e mais antiga. Eles foram elogiados por Jesus não apenas pelos serviços prestados, mas pela perseverança. Eram constantes na missão, mesmo sob intensa e cruel perseguição. Éfeso era uma igreja exemplar em muitos aspectos, inclusive na sua firmeza doutrinária. Eles tinham uma doutrina correta e não permitia desvios ou corrupção. Em suma, Jesus se dirige a uma igreja zelosa de boas obras, teologicamente sadia, ativa e perseverante, mas nem tudo naquela Igreja era agradável aos olhos do Rei dos reis e Senhor dos senhores.
O Senhor Jesus Cristo faz uma séria e verdadeira queixa contra
a sua Igreja:“Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor”. Ap 2.5. Notem irmãos que a queixa não é de natureza doutrinária ou moral; o julgamento não é por falta de obras ou experiências espirituais, mas a queixa é afetiva, tem haver com o coração da igreja. Tratava-se de uma Igreja incapaz de expressar afetos de intimidade e amor para com Deus.
“O primeiro amor”, disse Campbel Morgan, “é o abandono de tudo por um amor que também abandonou tudo”. Assim sendo, a reconquista deste amor é alvo da autêntica espiritualidade cristã. Fico pensando quantos cristãos podem dizer com sincera devoção: “Ó Deus tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; o meu corpo te almeja, como terra seca, árida, sem água. Porque a tua graça é melhor que a vida; os meus lábios te louvam”. Sl 63.1,3. As palavras do salmista revelam um coração batizado no amor de Deus e encantado com Sua Majestade; um coração maravilhado com a graça e fascinado com a beleza de Deus.
Como vai a sua vida, meu irmão? Você vive nesse estado de graça chamado primeiro amor? Ou será que se trata apenas uma lembrança de um passado distante? Talvez essa expressão não diga absolutamente nada a você. Mas se você é cristão, saiba que o Senhor Jesus quer lhe trazer de volta ao primeiro amor.

ANA: UMA VIDA SEM GRAÇA ALCANÇADA PELA GRAÇA DE DEUS

A história de Ana é uma contundente evidência da misericórdia de Deus na vida de seus servos. Sua vida foi alvo da surpreendente, transformadora e poderosa graça de Deus. Conhecida por ser “atribulada de espírito” e “ triste de coração”, Ana era alguém que não mais sorria, apenas chorava. Suas lágrimas constantes eram atestados de tristeza e dor. Tudo isso porque a maternidade era um sonho não realizado. Na condição de mulher estéril o sonho de ser mãe era uma impossibilidade. Penso que não são poucos os que estão na mesma situação de Ana. Gente adoecida na alma por conta de uma frustração, uma expectativa arruinada, um sonho não realizado. A Bíblia diz que “a esperança que se adia, faz adoecer o coração...” (Pv 13.12a).
Antônio Vieira disse que “para falar ao vento bastam palavras, para falar ao coração são necessários exemplos”. Portanto, todos aqueles que vivem hoje uma situação similar a de Ana precisam aprender como é possível uma vida sem graça ser agraciada por Deus e voltar a sorrir.
Ana orou ao Senhor. Simples mas eficaz. Ela tomou a iniciativa de buscar socorro em Deus. Ela não se entregou passivamente à tirania das circunstâncias, nem tão pouco se prostrou na cama da autocomiseração. Quantos não estão nesse exato momento angustiados por não buscar ao Senhor em oração e lhe apresentar suas inquietações? Quão verdadeiro é o hino que diz: “Ó que paz perdemos sempre, ó que dor no coração, só porque nós não levamos tudo a Deus em oração”(Hino 155 CC).
A confissão sincera e reverente tem poder terapêutico. Assim como Ana, podemos derramar nossa alma perante o Senhor e encontrar refrigério pra alma cansada. É necessário expor as interrogações, tristezas e frustrações sem tentar remover Deus do seu trono de glória. É bom lembrar que nossa súplica é dirigida ao Senhor dos Exércitos que criou, sustenta e governa todas as coisas. Benigno em sua natureza e caráter, Deus planejou o melhor para os seus servos. A oração é um instrumento poderoso para discernirmos a sua boa, perfeita e agradável vontade. Se aquilo que você vem pedindo a Deus consta nos planos dele para sua vida, a realização do sonho é só uma questão de tempo, o tempo de Deus. Ainda que pareça impossível, será realizado. Assim como Ana, servimos ao “Deus que vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não existem” (Rm 4.17).

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

O SENHOR É O MEU PASTOR, NADA ME FALTARÁ. Sl 23.1


Os salmos são dádivas de Deus a nós. O salmo 23 é a pérola do Saltério. Embora tenha sido escrito há mais de três mil anos, continua vivo e parece ter sido escrito hoje pela manhã. É imensurável o impacto desse salmo na história do povo de Deus. Geralmente é o primeiro salmo memorizado pelas crianças e repetido inúmeras vezes à medida que elas crescem. Quem pode numerar quantas vezes esse salmo já foi lido nas igrejas, nos hospitais, nos cemitérios ou pode mensurar o conforto que esse salmo trouxe ao coração das pessoas? Como disse o professor Kyle Yates, “somente a eternidade poderá revelar a extensão dos santos influxos desencadeados por este lindíssimo salmo”.
O primeiro versículo desse salmo é um dos mais conhecidos de toda a bíblia. Mesmo o ímpio já ouviu alguém dizer: “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará”. Esse primeiro verso é a chave para entendermos todo o salmo. Quando Davi disse: O Senhor é o meu pastor, nada me faltará, - ele está fazendo uma declaração impressionante, para não dizer, escandalosa. Soa até mesmo como uma audácia. Observe que ele diz que Deus é sua possessão, ou seja, Deus lhe pertence. Ele proclama em alto e bom som: “O Senhor é o meu pastor”. Observe o pronome possessivo. Parece uma irreverência. No entanto, trata-se de uma ousada proclamação de fé. Indubitavelmente pertencemos ao Senhor, somos sua possessão. Como diz o salmista: “Sabei que o Senhor é Deus; foi ele quem nos fez, e dele somos...” Salmo 100.3
Por isso, a declaração de Davi é um sinal da graça de Deus a nós. Embora sejamos nós que pertencemos a ele, podemos dizer como Davi: O Senhor é meu pastor. Na verdade trata-se de uma aliança. Deus nos chamou para si e aquele que lhe pertence pode dizer: “O meu amado é meu, e eu sou dele” Cantares 2.16. Lutero entendia o evangelho como santa aliança: “Deus declara: meu povo. Nós respondemos: Nosso Deus”. É por conta desse senso de pertença que podemos concluir: NADA ME FALTARÁ. Se Deus é nosso o que pode nos faltar?
Esse salmo tem sido uma fonte de inesgotável de consolo para aqueles que em meios às contingências da vida confia em Deus como seu supremo pastor. A vida é curta, é breve, é incerta. Devemos reconhecer isso. Todavia, nossa segurança reside na inabalável certeza de que temos o Senhor. Ele é nosso. Podemos dizer: Pai nosso que estás nos céus; Deus meu e Rei meu. Portanto, NADA NOS FALTARÁ.