
Em muitos aspectos vivemos um tempo similar àquele que antecedeu à Reforma Protestante do século 16. No que tange a pregação da Palavra de Deus, a similaridade é grande. Naqueles dias, assim como hoje, o ministério da Palavra estava em declínio, para não dizer, totalmente arruinado. Hugh Latimer, um dos reformadores ingleses, em seu famoso “sermão do arado” pregado na Catedral de São Paulo, no dia 18 de janeiro de 1548, apresentou um retrato da realidade com as seguintes palavras:
“Quem dera nossos prelados fossem tão diligentes para semear os grãos de trigo da sã doutrina quanto satanás o é para semear as ervas daninhas e o joio!” e advertiu com muita propriedade: “Onde o diabo está em residência e está com o seu arado em andamento, ali: fora os livros e vivam as velas!; fora as Bíblias e vivam os rosários!; fora a luz do evangelho e viva a luz das velas – até mesmo ao meio dia!; [...] vivam as tradições e as leis dos homens!; abaixo as tradições de Deus e sua santíssima Palavra[...]"
A situação nas igrejas cristãs, salvo as honrosas e raras exceções, é de extrema pobreza e mediocridade nos púlpitos. Por todo lado há almas famintas e sedentas, totalmente carentes de conhecer o “evangelho das insondáveis riquezas de Cristo”, mas falta quem pregue a sã doutrina. Há muitos animadores de auditório, especialistas em entreter, mas totalmente inaptos a apascentar a Igreja com “todo conselho de Deus”. Dominicalmente é oferecida a igreja uma sopa rala que por sua natureza não nutre nem produz genuíno crescimento. O brilhante John Owen declarou que “o primeiro e principal dever de um pastor é alimentar o rebanho pela pregação diligente da Palavra”. Eis uma das maiores necessidades da igreja contemporânea: verdadeiros e diligentes pregadores da Palavra de Deus.
A Reforma, a despeito de todas as acusações de seus detratores, deixou um glorioso legado ao cristianismo, o resgate da pregação pública da Palavra de Deus. Lutero, Calvino, Zwínglio, Knox nenhum deles inventou a pregação, mas certamente lutou para que ocupasse a primazia no culto cristão. Eles exortavam os que estavam sob a sua liderança e eles mesmos buscavam para si, a excelência na pregação da Palavra Para tanto, eles tinham um pressuposto e uma motivação. Eles entendiam que a pregação da Palavra de Deus é “um meio de graça indispensável e sinal infalível da verdadeira igreja”. A incansável luta desses gigantes da fé tinha como alvo a glória de Deus. Esta era a santa motivação para subir ao púlpito e anunciar o evangelho da graça.
A verdadeira pregação é a VIVA VOX EVANGELLI, a viva voz do evangelho. Não existe pregação sem exposição do evangelho que anuncia toda glória ao Deus de toda graça. Negligenciar a pregação da Palavra é sufocar o evangelho. As igrejas estão adoecidas, entre outras razões, por conta da negligencia dos pastores quanto a genuína pregação do evangelho.
O Dr. Martin Lloyde Jones, em seu notável livro, Pregação e Pregadores, comenta sobre um dos mais notáveis pregadores do século 19, o escocês Robert Murray McCheyne:
“É o comentário geral que quando aparecia no púlpito, mesmo antes de dizer alguma palavra, o povo já começava a chorar silenciosamente. Por que? Por causa deste elemento de seriedade. Todos tinham absoluta convicção de que ele subia ao púlpito vindo da presença de Deus e trazendo uma palavra da parte de Deus para eles”.
Encorajo a todos que foram chamados para pregar o evangelho que o façam com integridade e excelência, na dependência e no poder do Espírito, tendo Cristo como centro da mensagem e a glória do Pai como alvo supremo. Aos pregadores do evangelho, a exortação de Alexander Whyte a um jovem pregador é oportuna: “Nunca pense em abrir mão da pregação! Os anjos em derredor do trono invejam sua grandiosa obra.”
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